
Ex-correspondente da AFP ficou preso no campo de concentração de Buchenwald do ano de 1943 até ser liberto por soldados americanos em 1945 Em uma entrevista concedida à agência de notícias Agence France-Presse (AFP), o jornalista francês Jacques Moalic, de 102 anos, recordou com detalhes a libertação do campo de concentração nazista de Buchenwald, localizado na Turíngia, leste da Alemanha, por tropas americanas. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, o sobrevivente trabalhou na AFP durante 40 anos. Cerca de 56.000 judeus, ciganos, homossexuais, presos políticos e prisioneiros soviéticos morreram em Buchenwald entre 1937 e 1945. Outros 20.000 morreram no campo “anexo” de Mittelbau-Dora.
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Moalic era um jovem combatente da Resistência em 1943 quando foi preso e forçado a subir em um trem. Tentou fugir pulando do comboio, mas foi capturado. Em dezembro daquele ano, o levaram a Buchenwald, localizado em uma colina próxima à localidade alemã de Weimar e acabou no barracão 34.
No inferno do campo de concentração, os prisioneiros depositaram suas esperanças nas forças aliadas, que desembarcaram nas praias da Normandia em 6 de junho de 1944.
A libertação de Paris em agosto de 1944 levantou seu ânimo.
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— Nos campos de concentração, as pessoas recuperaram a coragem. Elas diziam umas às outras: “seremos livres no Natal”. Eu realmente não acreditava nisso, mas estava certo — lembra Moalic, em seu apartamento em Paris.
Ao ver que as tropas aliadas não haviam chegado no final do ano, muitos começaram a perder a esperança.
Em janeiro de 1945, ele foi enviado ao campo de concentração de Ohrdruf.
— Em janeiro, acredito que foi no dia 8, nos reuniram de forma inesperada — recorda. — O oficial da SS passa entre as fileiras anotando os números. Entre 800 e 900 de nós seriam enviados para um campo que ninguém conhecia.
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O futuro correspondente da AFP no Congo, Argel e Hanói foi aconselhado a tentar ser retirado da lista se quisesse viver.
— Mas eu estava nela e não havia escapatória. Acabamos em Ohrdruf — destaca.
Ali obrigavam os prisioneiros a cavar túneis subterrâneos “dia e noite” e Moalic pensava que morreria.
— Falei comigo mesmo: se me acordam às quatro ou cinco da madrugada e volto às dez da noite, durarei 15 dias. Pela primeira vez, pensei que talvez não voltasse — acrescenta.
Mas, ao invés disso, o destinaram à instalação de eletricidade nos estábulos.
— Isso salvou a minha vida — diz.
O homem também dormiu em antigos alojamentos do então Exército alemão Wehrmacht, enquanto outros prisioneiros estiveram expostos a temperaturas de 15 graus abaixo de zero. Muitos morreram.
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Marcha da morte
— É claro, sabíamos há tempos que os russos e os aliados estavam avançando. Mas há uma grande diferença entre “estão avançando” e “estão aqui” — explica.
Entretanto, um dia, enquanto os oficiais passavam a lista aos presos, escutaram um som novo — “artilharia, canhões” – e perceberam que os aliados estavam perto.
— Nos olhamos uns para os outros e se fez um silêncio extraordinário — afirma.
Em 1945, a Páscoa caiu 1° de abril. Nesse dia não trabalharam. Eles então foram informados que seriam retirados dali. Eles receberam a ordem de marchar em colunas de mil pessoas, sem saber seu destino, por uma paisagem montanhosa.
— Estava chuviscando — descreve Moalic. — Caminhamos assim por três ou quatro dias.
Ohrdruf tinha sido pior do que Buchenwald e os prisioneiros estavam exaustos, alguns “meio mortos”. Qualquer um que caísse no caminho era fuzilado.
— Muitos morreram durante a marcha da morte, diz Moalic. — Chegamos à estação de trem de Weimar e então eles começaram a subir em direção a Buchenwald. Eram cerca de seis ou sete quilômetros. Havia 72 cadáveres.
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Libertação
Os prisioneiros chegaram a Buchenwald ao anoitecer.
— Nos contaram de cinco em cinco, segundo o procedimento. Estávamos entre 3.000 e 4.000 na praça, nus, sem nada — relembra.
Um homem o reconheceu e o levou de volta ao barracão 34.
— Eu estava coberto de piolhos — destaca.
Os americanos se aproximavam cada vez mais.
— Em 11 de abril, havia muito nervosismo no campo — descreve Moalic.
Os prisioneiros não sabiam se os libertariam ou os matariam.
— Os SS começaram a esvaziar o campo, barracão por barracão, e enviavam cada grupo à estação de Weimar, onde vagões asquerosos lhes esperavam — diz.
Os prisioneiros que ficavam se prepararam para um possível combate. Mas, segundo o sobrevivente, “de repente, uma unidade americana chegou”.
— Os SS não lutaram, preferiram fugir. Alguns minutos depois, já estávamos do lado de fora — explica.
Em um relato publicado em 1985, Moalic recordou o momento como um lindo dia para os internos do campo de concentração de Buchenwald”, o primeiro dia bonito desde 1937, quando Heinrich Himmler o inaugurou.
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